
A Seca e o Desenvolvimento de Capital Humano
Juliano da Silva e Rafael Fraga
Universidade Federal de Juiz de Fora
18/06/25
Como discutido no relatório “Os Impactos Socioeconômicos da Seca”¹, elaborado pelo Observatório das Desigualdades em Educação, Saúde e Sustentabilidade (ODES/UFJF), a ocorrência deste tipo de desastre pode gerar uma série de consequências à sociedade, de forma direta ou indireta. Sob a ótica econômica, no texto sobre os “Efeitos da Seca no Preço do Caf锲 também elaborado pelo ODES/UFJF, nota-se que o primeiro impacto observado ocorre predominantemente sobre o setor agrário, aquele com maior dependência climática. Contudo, os prejuízos podem ir além de valores monetários, demandando um debate mais complexo sobre o caso.
Duque et al. (2017) lançaram luz sobre um tema central no debate educacional: o impacto dos choques adversos sofridos na infância sobre os caminhos futuros de aprendizado. O estudo mostra que as experiências vividas nos primeiros anos de vida — como a exposição à secas extremas — influenciam diretamente a forma como crianças respondem a investimentos posteriores em saúde e educação. Mais do que buscar relações de causa e efeito, os autores chamam atenção para algo essencial: a construção do capital humano é um processo contínuo, e eventos negativos no começo da vida podem enfraquecer, ou até anular, os efeitos de políticas públicas aplicadas mais tarde. Para eles, o momento em que os investimentos são feitos é tão importante quanto a sua intensidade.
Outros estudos, como os de Currie e Vogl (2013) e Rosales-Rueda (2016), mostram que crianças que enfrentam choques adversos nos primeiros anos de vida, principalmente entre o nascimento e os três anos, tendem a ter mais dificuldades de saúde, aprendizado e desenvolvimento ao longo da vida.
A literatura ainda avança para alcançar um consenso sobre o tema. Enquanto alguns estudos mostram que desastres naturais podem provocar cortes nos investimentos em educação e capital humano — afetando principalmente as populações mais vulneráveis (López, 2009; Pörtner, 2008; Sigurdsen, Berger e Heymann, 2011; Yamauchi, Yohannes e Quisumbing, 2009) —, outros vão à direção contrária. Nessas análises, os mesmos eventos extremos funcionam como um gatilho para ampliar esses investimentos, seja pela ação do Estado, seja por uma resposta das próprias famílias (Ferreira; Schady, 2009; López, 2009; Rush, 2018; Shah; Steinberg, 2017; Skidmore; Toya, 2002).
De forma central, entende-se que a discussão em torno da seca deve – principalmente – levar em consideração a existência de efeitos de curto e longo prazo.
Por exemplo, no curto prazo, os investimentos na infraestrutura escolar e o distanciamento das atividades de trabalho rural – devido à falta de chuva –, podem gerar efeitos positivos. Segundo Shah e Steinberg (2017) a exposição de crianças indianas em idade escolar à seca está associada a um melhor desempenho em testes de matemática e ao aumento da frequência escolar, em comparação àquelas não expostas. Esse fenômeno pode ser explicado pela menor probabilidade de mães e crianças participarem de atividades de trabalho durante períodos de seca, o que pode permitir maior dedicação aos estudos. Do mesmo modo, Rush (2018) observou que, quanto maior a proporção da população afetada por desastres, maior é o número de matrículas nas escolas primárias na Indonésia. Como o país é muito vulnerável à secas - as quais afetam uma grande parte da população -, há uma redução nas alternativas de trabalho para os alunos do ensino fundamental, especialmente no setor agrícola. Essa situação torna as famílias mais propensas a matricular seus filhos na escola. Além disso, os resultados desta investigação indicam que danos à plantação e à irrigação também estão associados ao aumento das matrículas escolares das crianças.
No longo prazo, vão por outro caminho. Ou seja, apesar da presença na escola ser algo que contribua para o desenvolvimento humano, o longo período de exposição à seca pode gerar danos silenciosos e irreversíveis ao futuro de gerações.
No semiárido brasileiro, a preocupação desde a gestação passa pela primeira infância e chega aos primeiros anos de estudo. Zhang et al. (2021) e Da Mata et al. (2023) alertam que certas toxinas que surgem nas águas após grandes períodos de seca, podem provocar restrições no crescimento intrauterino. Crianças que são afetadas podem ter seu peso ao nascer reduzido, o que pode impactar diretamente no seu desenvolvimento, através de déficits cognitivos (Cole et al., 2023).
A falta de uma alimentação adequada geralmente se manifesta em duas formas principais: a escassez de alimentos com proteínas e calorias, que leva ao baixo peso e à baixa estatura, e o que os especialistas chamam de “fome oculta” — quando a pessoa se alimenta, mas não consome nutrientes essenciais como ferro, vitamina A, iodo, zinco e ácido fólico (UNICEF, 2005). Para Rocha e Soares (2015), esse tipo de deficiência está diretamente ligado à pobreza e à falta de condições básicas, como acesso à água potável e a uma alimentação de qualidade — problemas que costumam ser mais graves em regiões afetadas por longos períodos de seca.
Tais carências produzem efeitos de longo prazo nos indivíduos a elas expostos, de modo que seus resultados na vida adulta, como renda mensal e condições de moradia, podem ser comprometidos (Lin, Liu e Xu, 2020).
Estudos da pesquisadora e coordenadora do Odes Ufjf Flávia Chein³ ⁴- em parceria com Isabel de Souza - revelam que os efeitos da seca sobre os rendimentos na vida adulta variam conforme o tipo de comparação realizada. Foram analisadas duas amostras de indivíduos expostos à seca entre 1979 e 1984, durante a primeira infância, com o objetivo de entender os impactos de longo prazo. Na primeira comparação, entre pessoas nascidas na mesma localidade, mas em períodos distintos — uma com seca e outra sem —, os resultados apontaram perdas expressivas: os indivíduos expostos à seca tiveram rendimentos na vida adulta cerca de 40% menores em termos individuais e 60% menores em termos domiciliares. Esse efeito negativo pode indicar um impacto persistente da seca severa em regiões já vulneráveis à escassez hídrica, sugerindo um ciclo deficitário e de longo prazo.
Por outro lado, a segunda comparação, entre indivíduos nascidos em diferentes localidades, mas no mesmo período de seca severa, mostrou resultados opostos: os expostos à seca apresentaram rendimentos ligeiramente superiores — 2% no rendimento individual e 4% no domiciliar. Esse resultado aparentemente positivo pode ser explicado pelo fato de que populações residentes em regiões tradicionalmente secas estão mais adaptadas a lidar com a escassez de água, desenvolvendo estratégias de sobrevivência e geração de renda mesmo em situações adversas, bem como pelo investimento público de urgência. Em contraste, indivíduos que vivem em regiões normalmente úmidas, mas que enfrentaram um período atípico de seca, tendem a sofrer mais intensamente os efeitos da escassez, por não estarem preparados para lidar com esse tipo de choque climático e não receberem recursos que possam servir como política de auxílio. Assim, os dados revelam não apenas os efeitos da seca em si, mas também a importância do contexto geral.
Em conclusão, os impactos da seca vão muito além das perdas no setor agrícola. Além de afetar diretamente a economia, a escassez de alimentos provoca efeitos biológicos profundos, que acabam refletindo também na formação de capital humano. Em muitas famílias, a queda na renda agrícola leva à redução da frequência escolar de mulheres e crianças, como uma estratégia de sobrevivência. Ao mesmo tempo, a má alimentação e as dificuldades de acesso à saúde, especialmente para gestantes e crianças pequenas, comprometem o desenvolvimento físico e cognitivo das novas gerações. Isso significa que habilidades essenciais para o aprendizado podem ser afetadas desde os primeiros anos de vida. Ter acesso à alimentação adequada — o que depende diretamente da disponibilidade de água — é fundamental para garantir um desenvolvimento saudável e digno, mesmo que haja uma adaptação dos indivíduos aos ambientes de seca.
Referências:
1. Os Impactos Socioeconômicos da Seca. ODES-UFJF. https://www.odes-ufjf.org/reports-secas-efeitos-socioeconomicos
2. Efeitos da Seca no Preço do Café. ODES-UFJF. https://www.odes-ufjf.org/c%C3%B3pia-conhecimento-tradicional-patentes
3. Estudo investiga reflexos da seca na saúde e na inserção futura de jovens no mercado de trabalho. UFJF Notícias, 2017. https://www2.ufjf.br/noticias/2017/08/29/estudo-investiga-reflexos-da-seca-na-saude-e-na-insercao-futura-de-jovens-no-mercado-de-trabalho/
4. Souza, I. A.; Chein, F. Condições Iniciais De Saúde E Renda Futura: Uma Análise Dos Impactos Da Seca No Brasil. Dissertação de Mestrado, Repositório UFJF, 2017. http://repositorio.ufjf.br:8080/jspui/bitstream/ufjf/5646/1/isabelamaraldesouza.pdf
Da Mata, Daniel; Emanuel, Lucas; Pereira, Vitor; Sampaio, Breno. Climate adaptation policies and infant health: Evidence from a water policy in Brazil. Journal of Public Economics, Volume 220, 2023, 104835. https://doi.org/10.1016/j.jpubeco.2023.104835
Cole, Cassandra; Jack, Kelsey B.; Meng, Kyle C.; Visser, Martine. Dodging day zero: drought, adaptation, and inequality in Cape Town. NEUDC Conference, 2023. https://www.nber.org/papers/w33468
Currie, J.; Vogl, T. Early-life health and adult circumstance in developing countries. Annual Review of Economics, 5, 1–36, 2013. https://doi.org/10.1146/annurev-economics-081412-103704
Ferreira, F. H. G.; Schady, N. Aggregate Economic Shocks, Child Schooling, and Child Health. The World Bank Research Observer, 24(2), 147–181, 2009. https://doi.org/10.1093/wbro/lkp006
Lin, Y.; Liu, F.; Xu, P. Effects of drought on infant mortality in China. Health Economics, 30, 248–269, 2021. https://doi.org/10.1002/hec.4191
López, R. Natural disasters and the dynamics of intangible assets. World Bank Policy Research Working Paper, n. 4874, 2009. https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=1368080
Pörtner, C. C. Gone with the wind? Hurricane risk, fertility and education. Hurricane Risk, Fertility and Education (February 2008). https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=936034
Rocha, Rudi; Soares, Rodrigo R. Water scarcity and birth outcomes in the Brazilian semiarid. Journal of Development Economics, 112, 72–91, 2015. https://doi.org/10.1016/j.jdeveco.2014.10.003
Rosales-Rueda, M. Impact of early life shocks on human capital formation: Evidence from El Niño floods in Ecuador, 2018. https://doi.org/10.1016/j.jhealeco.2018.07.003
Rush, J. V. The Impact of Natural Disasters on Education in Indonesia. Economics of Disasters and Climate Change, 2(2), 137–158, 2018. https://doi.org/10.1007/s41885-017-0022-1
Shah, M.; Steinberg, B. M. Drought of Opportunities: Contemporaneous and Long-Term Impacts of Rainfall Shocks on Human Capital. Journal of Political Economy, 125(2), 527–561, 2017. https://www.journals.uchicago.edu/doi/10.1086/690828
Sigurdsen, P.; Berger, S.; Heymann, J. The Effects of Economic Crises on Families Caring for Children: Understanding and Reducing Long-term Consequences. Development Policy Review, 29(5), 547–564, 2011. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1467-7679.2011.00546.x
Skidmore, M.; Toya, H. Do Natural Disasters Promote Long-Run Growth? Economic Inquiry, 40(4), 664–687, 2002. https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1093/ei/40.4.664
UNICEF. The state of the world's children 2006: excluded and invisible. UNICEF, 2005. https://www.unicef.org/reports/state-worlds-children-2006
Yamauchi, F.; Yohannes, Y.; Quisumbing, A. R. Risks, Ex-Ante Actions and Public Assistance: Impacts of Natural Disasters on Child Schooling in Bangladesh, Ethiopia and Malawi. SSRN Scholarly Paper, Rochester, NY, 2009. https://papers.ssrn.com/abstract=1401215
Zhang, Shiyu; Xingde, Du; Liu, Haohao; Losiewic, Michael D.; Chen, Xinghai; Ma, Ya; Wang, Rui; Tian, Zhihui; Shi, Linjia; Guo, Hongxiang; Zhang, Huizhen. The latest advances in the reproductive toxicity of microcystin-LR. Environmental Research, 192, 2021. https://doi.org/10.1016/j.envres.2020.110254

