Efeitos da Seca no Preço do Café
Conforme aponta o estudo “Os Impactos Socioeconômicos da Seca”, elaborado pelo Observatório das Desigualdades em Educação, Saúde e Sustentabilidade (ODES/UFJF)¹, os desastres naturais mais frequentes no Brasil são os de origem climatológica. As secas e estiagens, assim como demais eventos naturais, têm causas associadas ao clima. Ou seja, tanto a escassez quanto o excesso de chuvas resultam de alterações climáticas. Nesse contexto, este relatório propõe analisar especificamente de que forma os efeitos das mudanças climáticas e dos desastres climatológicos têm influenciado na oferta e preço de produtos de nosso cotidiano, como o grão de café.

Nos últimos anos, tais fenômenos têm ocorrido de maneira atípica e com maior intensidade, rompendo ciclos naturais e dificultando a adaptação das regiões e populações afetadas. Diante desse cenário, a resposta dos usuários à escassez hídrica extrapola a simples disponibilidade física da água. Instituições e infraestrutura exercem papéis fundamentais na mitigação dos efeitos das secas. As instituições são responsáveis por estabelecer critérios sobre quando, como e para quem o recurso hídrico será destinado — seja em situações normais, seja em períodos de crise. Já a infraestrutura define a capacidade de transporte, armazenamento e acesso à água.
Além dos desafios impostos pelas condições climáticas, muitas regiões áridas e semiáridas enfrentam entraves institucionais, uma vez que não há distinção clara entre os órgãos responsáveis pela gestão rotineira dos recursos hídricos e aqueles que atuam em contextos emergenciais. Soma-se a isso a crescente integração entre os mercados agrícola e financeiro, que também influencia os impactos econômicos decorrentes das secas. Enquanto países desenvolvidos dispõem de mecanismos para evitar a escassez regional de alimentos, nações em desenvolvimento permanecem vulneráveis a crises alimentares.
É observado que as alterações climáticas impactam diretamente a produção cafeeira, afetando não apenas os agricultores, mas toda a cadeia produtiva. O cafeeiro é uma planta sensível a temperaturas elevadas e apresenta alto grau de vulnerabilidade em períodos de seca intensa — uma realidade que afeta também outras culturas agrícolas. A agricultura, setor fundamental para a segurança alimentar e o desenvolvimento socioeconômico, depende intrinsecamente das condições ambientais (Assunção; Chein, 2016)². Assim, as variações climáticas acabam por comprometer todo o sistema produtivo do café.
De acordo com Silva e Pinto (2024)³, os impactos climáticos já alteram de forma significativa a percepção dos produtores sobre os riscos associados à atividade cafeeira, representando ameaça não apenas aos pequenos produtores, mas também ao setor como um todo, inclusive consumidores. A volatilidade dos preços do grão é amplamente influenciada por eventos extremos, como as secas, que reduzem a oferta e, consequentemente, elevam os valores praticados no mercado. O estudo de Barbosa (2022)⁴ demonstra que choques de seca podem atrasar a colheita em até dois meses, resultando em aumentos de preço tanto no mercado interno quanto no internacional, ao menos no curto prazo.
Segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado em dezembro de 2024, o preço do café moído apresentou elevação de aproximadamente 39,60% nos últimos doze meses no Brasil. Trata-se do quarto maior impacto individual sobre a inflação no período, atingindo um recorde histórico. O valor médio de 1 kg de café ao consumidor passou de R$ 35,09, em janeiro de 2024, para R$ 48,57 em dezembro do mesmo ano. Tal aumento foi impulsionado pelas prolongadas estiagens enfrentadas nas principais regiões produtoras brasileiras, como Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO)⁵ também atribui às mudanças climáticas a principal causa do aumento nos preços do café, ressaltando que a elevação dos custos afeta tanto o Brasil quanto outros grandes produtores, como o Vietnã. Em 2024, o preço global do café registrou alta de 38,8% em comparação à média de 2023, e as projeções indicam a manutenção dessa tendência em 2025. A FAO ainda destaca que, devido às condições climáticas adversas, as estimativas da produção brasileira para o ciclo 2023–2024 foram revistas para baixo. A expectativa inicial de crescimento de 5,5% foi substituída por uma previsão de retração de 1,6%.
Em escala global, a produção de café também tem sido seriamente afetada por eventos climáticos extremos⁶. Na Ásia, o Vietnã — segundo maior produtor mundial e, junto ao Brasil, responsável por cerca de 50% da produção global — sofreu redução de aproximadamente 20% na safra de 2023–2024 em decorrência de uma severa seca. Como resultado, suas exportações recuaram 10% no período. Já na Indonésia, a produção caiu 16,5% em relação ao ano anterior, devido às chuvas excessivas entre abril e maio de 2023, que comprometeram grande parte das lavouras. Com isso, as exportações asiáticas registraram queda de 23%, sendo as alterações climáticas o principal fator responsável.
A crescente instabilidade climática representa, portanto, uma ameaça concreta à produção global de café. Especialistas atribuem esse cenário, em grande parte, ao aquecimento global, tendo em vista que o cafeeiro é altamente sensível a variações extremas de temperatura e umidade. Para mitigar os efeitos da seca sobre a produção cafeeira, algumas estratégias podem ser adotadas:
I. Desenvolvimento de variedades de café mais resistentes à seca;
II. Investimento em sistemas de irrigação mais eficientes;
III. Planejamento e manejo agrícola voltados à conservação hídrica;
IV. Adoção de técnicas agroflorestais para reduzir a exposição direta ao sol;
V. Implementação de políticas públicas de apoio aos pequenos produtores afetados.
A cooperação entre governos, organizações internacionais e o setor privado mostra-se essencial para viabilizar tais estratégias. Além disso, o fortalecimento da pesquisa científica e da inovação tecnológica tem potencial para desempenhar papel decisivo na adaptação da cafeicultura às novas condições climáticas.
Conclui-se, assim, que o principal fator por trás do aumento expressivo dos preços do café — tanto no Brasil quanto no cenário internacional — está intrinsecamente relacionado às mudanças climáticas e aos eventos extremos, como secas e estiagens, que comprometem significativamente a produção do grão.
Diante desse panorama, é imprescindível a adoção de medidas preventivas e adaptativas, capazes de mitigar os impactos das secas e promover a estabilidade do mercado cafeeiro. A incorporação de tecnologias agrícolas avançadas, aliada a políticas públicas eficazes, pode assegurar um futuro mais sustentável à cafeicultura, garantindo segurança econômica aos produtores e acesso contínuo ao produto por parte dos consumidores.
Referências
¹ Os Impactos Socioeconômicos da Seca
<https://www.odes-ufjf.org/reports-secas-efeitos-socioeconomicos>
Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação
<https://openknowledge.fao.org/items/746931ac-36b8-463f-8d7b-446585158047>
² ASSUNÇÃO, J.; CHEIN, F. Climate change and agricultural productivity in Brazil: future perspectives. Environment and Development Economics, v. 21, n. 5, p. 581–602, out. 2016.
<https://doi.org/10.1017/S1355770X1600005X>
³ SILVA, J. B. C. DA; PINTO, P. A. L. DE A. Impactos socioeconômicos das mudanças climáticas na produção do café: uma revisão sistemática da literatura. Revista Brasileira de Climatologia, v. 35, p. 155–178, 19 jul. 2024. <https://doi.org/10.55761/abclima.v35i20.17626>
⁴ BARBOSA, D. R. B. IMPACTOS DA PRECIPITAÇÃO NA VARIAÇÃO DOS PREÇOS DO CAFÉ ENTRE 2012 E 2020. 2022. <https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/72482>
⁵ Secas e geadas no Brasil contribuíram para alta global de preços do café | ONU News <https://news.un.org/pt/story/2025/03/1846226>
⁶ Vítima das mudanças climáticas café já custa quase 50 reais o quilo https://veja.abril.com.br/agenda-verde/vitima-das-mudancas-climaticas-cafe-ja-custa-quase-50-reais-o-quilo/

