
Do Campo à Sala de Aula: Os Efeitos das Secas sobre o Trabalho Infantil e o Desempenho Escolar no Brasil
Juliano da Silva e Flávia Chein
Universidade Federal de Juiz de Fora
21/09/26
Contextualização
As mudanças climáticas têm intensificado a ocorrência de eventos extremos, com importantes consequências socioeconômicas. No Brasil, secas e estiagens constituem a categoria mais frequente de desastres climatológicos, afetando a atividade econômica, a renda das famílias e as condições de vida da população. Entre 2011 e 2019, foram registrados mais de 22.000 desastres no país, afetando mais de 116 milhões de pessoas e gerando perdas estimadas em R$ 45,8 bilhões (Brasil, 2023).
Além dos efeitos diretos, os choques climáticos podem comprometer a formação de capital humano por meio de alterações na renda familiar, na saúde, na estrutura domiciliar e na infra estrutura escolar (Alderman et al., 2006; Hoddinott and Kinsey, 2001; Baez et al., 2010; Baez and Santos, 2007). Entre os desastres registrados, os eventos climatológicos, principalmente secas e estiagens, representaram aproximadamente 52% das ocorrências no período analisado, conforme a Figura 1.
Figura 1: Distribuição dos Desastres Naturais no Brasil (2011–2019)

Fonte: Elaboração própria com base nos dados do Atlas Digital de Desastres.
Este estudo concentra-se nesses eventos, definidos pela COBRADE como fenômenos associados a déficits de umidade e que incluem secas e estiagens. A Figura 2 apresenta sua distribuição espacial no território brasileiro.
Figura 2: Mapas Temáticos da Distribuição dos Municípios segundo a Ocorrência e Tipologia dos Desastres

Fonte: Elaboração própria com base nos dados do Atlas Digital de Desastres.
Embora a literatura sobre choques climáticos e educação tenha avançado, seus efeitos perma necem heterogêneos. Enquanto parte dos estudos identifica prejuízos ao desempenho escolar, evidências recentes sugerem que secas podem melhorar o desempenho educacional ao diminuir a demanda por trabalho infantil (Rush, 2018; Shah and Steinberg, 2017; Zimmermann, 2020; Nordstrom and Cotton, 2025). Nesse contexto, investigar essa relação no Brasil contribui para compreender como a estrutura produtiva e o trabalho infantil condicionam os efeitos dos choques climáticos sobre a educação.
Estratégia Empírica
A estratégia empírica integra os dados de quatro edições da Prova Brasil/SAEB (2013, 2015, 2017 e 2019) — abrangendo o desempenho em Língua Portuguesa e Matemática de estudantes do 5º e 9º anos do Ensino Fundamental — ao registro oficial de desastres naturais do Atlas Digital de Desastres no Brasil. A amostra final compreende 1.494 municípios brasileiros, dos quais 119 foram expostos exclusivamente a desastres climatológicos (secas ou estiagens) durante o período analisado, enquanto 1.375 não registraram desastres de qualquer natureza, compondo o grupo de controle.
Figura 3: Mapas Temáticos da Classificação dos Municípios segundo a Estratégia de Identificação

Fonte: Elaboração própria com base nos dados do SAEB e do Atlas Digital de Desastres.
A metodologia empregada fundamenta-se na abordagem de diferença em diferenças (DiD) hete rogênea proposta por de Chaisemartin and D’Haultfœuille (2024). O estimador DIDℓ contrasta a evolução dos resultados entre as unidades que transitam da condição de não tratadas para tratadas (Switchers) e aquelas que mantêm o status de não tratadas (Non-Switchers) no ℓ-ésimo período relativo à intervenção. Para averiguar a validade da hipótese de tendências paralelas, foram estimados modelos placebo. Sob a premissa de tendências paralelas, o estimador obtido é consistente e imune a viés decorrente da heterogeneidade temporal do efeito do tratamento.
Dessa forma, o arranjo empírico compara a variação no desempenho escolar dos municípios afetados por secas com a variação observada nos municípios não expostos, no intervalo entre as edições da avaliação. Tal procedimento permite isolar o efeito do choque climatológico de determinantes invariantes no tempo e de choques macroeconômicos comuns. A realização de testes de robustez com a simulação de choques falsos (placebos) em municípios não afetados confirmou a consistência dos resultados, uma vez que nenhum efeito estatisticamente significante foi detectado nessas especificações.
Um aspecto crucial do desenho amostral residiu na estrita delimitação dos grupos analíticos. O grupo tratado foi restrito aos municípios que enfrentaram de forma exclusiva desastres climato lógicos no período, excluindo-se localidades afetadas por múltiplos eventos simultâneos ou de outras naturezas (como desastres hidrológicos). Esse rigor metodológico assegura que os coe ficientes estimados captem estritamente o canal de transmissão associado às secas e estiagens, evitando a contaminação por choques de natureza diversa.
Resultados Principais
Nos municípios expostos a secas ou estiagens, a pontuação média em Matemática dos alunos do 5º ano apresentou uma elevação de 3,99 pontos em comparação ao grupo de controle, variação equivalente a 0,15 desvio-padrão na escala nacional. Para fins de magnitude, esse impacto aproxima-se ao de intervenções estruturais consolidadas na literatura, como os efeitos estimados da implantação do FUNDEF sobre o desempenho escolar (Menezes-Filho and Pazello, 2007).
Figura 4: Resultados para a Amostra de Desastres Climatológicos

Fonte: Elaboração própria com base nos dados do SAEB e do Atlas Digital de Desastres. Intervalos de confiança construídos a 5% de significância.
Os impactos favoráveis do choque não se restringiram à proficiência acadêmica. Como demons tra a Figura 5, observou-se também nos municípios afetados um ganho na taxa de aprovação escolar, acompanhado por reduções estatisticamente significantes nas taxas de abandono e na distorção idade-série. Cumpre ressaltar que tais efeitos positivos concentram-se exclusivamente no 5º ano do Ensino Fundamental.
Figura 5: Resultados para a Amostra de Desastres Climatológicos – 5º Ano

Fonte: Elaboração própria com base nos dados do SAEB e do Atlas Digital de Desastres. Intervalos de confiança construídos a 5% de significância.
O mecanismo explicativo central fundamenta-se na hipótese do custo de oportunidade do traba lho infantil. Em cenários normais de produção agrícola, o trabalho infantil informal gera retorno econômico imediato (complementação da renda familiar ou redução de custos operacionais).
No entanto, quando a seca severa retrai a atividade agrícola, o retorno do trabalho no campo cai drasticamente, reduzindo o custo de oportunidade do trabalho infantil assim elevando a oportunidade da criança se manter na escola. Para testar essa hipótese, analisou-se a incidência do trabalho infantil fora do domicílio e a participação do setor agropecuário no produto local.
A análise de heterogeneidade revela que o efeito positivo observado na amostra geral é impulsi onado pelo subgrupo dos estudantes do sexo masculino. Para estes, a nota média de Matemática registrou acréscimo de 5,19 pontos (0,19 desvio-padrão) nos municípios tratados, acompanhado por uma queda de 3% a 4% na taxa de participação no trabalho infantil para o 5º Ano do ensino fundamental.
Figura 6: Estimações para a Amostra de Estudantes do Sexo Masculino Painel A – Resultados Principais

Painel B – Mecanismos

Fonte: Elaboração própria com base nos dados do SAEB e do Atlas Digital de Desastres. Intervalos de confiança construídos a 5% de significância.
Esse padrão é consistente com a dinâmica do mercado de trabalho agrícola rural no Brasil, no qual a alocação de mão de obra infantil é desproporcionalmente concentrada nos meninos. Desse modo, a retração da demanda por trabalho agrícola decorrente da seca libera preferencialmente o tempo dos meninos, revertendo-se em maior dedicação e rendimento escolar para esse grupo. Quando a amostra foi desagregada por raça (estudantes brancos e negros), não foram identificadas diferenças estatisticamente relevantes, confirmando que o gênero representa o principal vetor de heterogeneidade da resposta ao choque.
Considerações Finais
Esta pesquisa investiga os efeitos contemporâneos de eventos climatológicos extremos sobre o desempenho escolar na educação básica brasileira. Os resultados indicam efeito positivo das secas e estiagens sobre a proficiência em Matemática no 5º ano do Ensino Fundamental, com aumento de 3,99 pontos (0,15 desvio-padrão), acompanhado por melhorias nos indicadores de fluxo escolar. Esse efeito concentra-se entre estudantes do sexo masculino, cujo ganho alcança 5,19 pontos (0,19 desvio-padrão), concomitantemente à redução do trabalho infantil, sugerindo que a diminuição do custo de oportunidade da escolarização constitui importante mecanismo de transmissão.
Não foram identificados efeitos significantes para estudantes do sexo feminino, recortes raciais ou alunos do 9º ano. Os testes placebo não indicam efeitos espúrios. Os resultados evidenciam que, no contexto brasileiro, secas podem produzir efeitos educacionais positivos no curto prazo ao reduzir a demanda por trabalho infantil e favorecer a alocação do tempo das crianças em atividades escolares. Sob a perspectiva das políticas públicas, os achados sublinham a importância do fortalecimento de redes de proteção social, programas de transferência de renda e alimentação escolar como estratégias para mitigar o trabalho infantil e incentivar a permanência escolar.
Em suma, o estudo contribui para a literatura ao evidenciar que os choques climáticos não desencadeiam inevitavelmente efeitos educacionais de curto prazo negativos, demonstrando que, no contexto rural brasileiro, a retração econômica decorrente da seca pode induzir uma realocação produtiva do tempo das crianças em direção às atividades escolares.
Referências
Alderman, H., Hoddinott, J., and Kinsey, B. (2006). Long term consequences of early childhood malnutrition. Oxford economic papers, 58(3):450–474. Publisher: Oxford University Press.
Baez, J., de la Fuente, A., and Santos, I. V. (2010). Do Natural Disasters Affect Human Capital? An Assessment Based on Existing Empirical Evidence.
Baez, J. E. and Santos, I. V. (2007). Children’s vulnerability to weather shocks: A natural disaster as a natural experiment. Social science research network, New York, pages 1–28.
Brasil (2023). Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. Secretaria de Proteção e Defesa Civil. Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Estudos e Pesquisas em Engenharia e Defesa Civil.Atlas Digital de Desastres no Brasil., Brasília: MIDR. Acesso em: 02 mar. 2026.
de Chaisemartin, C. and D’Haultfœuille, X. (2024). Difference-in-Differences Estimators of Intertemporal Treatment Effects. The Review of Economics and Statistics, pages 1–45.
Hoddinott, J. and Kinsey, B. (2001). Child Growth in the Time of Drought. Oxford Bulletin of Economics and Statistics, 63(4):409–436.
Menezes-Filho, N. and Pazello, E. (2007). Do teachers’ wages matter for proficiency? Evidence from a funding reform in Brazil. Economics of Education Review, 26(6):660–672.
Nordstrom, A. and Cotton, C. S. (2025). The Impact of a Severe Drought on Girls’ Attendance and Learning. American Educational Research Journal, 62(4):691–725.
Rush, J. V. (2018). The Impact of Natural Disasters on Education in Indonesia. Economics of Disasters and Climate Change, 2(2):137–158.
Shah, M. and Steinberg, B. M. (2017). Drought of Opportunities: Contemporaneous and Long-Term Impacts of Rainfall Shocks on Human Capital. Journal of Political Economy, 125(2):527–561.
Zimmermann, L. (2020). Remember when it rained – Schooling responses to shocks in India. World Development, 126:104705.
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