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Adolescentes no celular

Infância conectada: qual seria o papel dos pais?

Rafael Fraga e Juliano da Silva 

Universidade Federal de Juiz de Fora

05/11/25

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Como abordado no relatório Odes “Infância conectada: internet, celulares e educação”, o Estado já vem tomando medidas para o controle do uso de celulares e internet por crianças e adolescentes em ambiente escolar. No entanto, foi possível concluir que a solução não aponta para a exclusão total do acesso, mas para a construção de estratégias pedagógicas que aliem disciplina e inclusão digital. Paralelamente, é preciso avançar e compreender que o uso de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) vai além do ambiente escolar, sendo um comportamento sujeito à supervisão de pais e tutores. 

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Segundo o Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação do Brasil (CETIC.br) (2025), a escola não é nem o segundo ambiente mais utilizado para acesso à internet por crianças e adolescentes de 9 a 17 anos, o que nos acende um alerta. Será que só a restrição em ambiente escolar é o suficiente para mediar o uso pelos jovens?  Qual e como seria o papel dos pais neste processo?

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Figura 1 - FREQUÊNCIA DE ACESSO À INTERNET, POR LOCAL

Total de usuários de Internet de 9 a 17 anos (%)

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Fonte: Apresentação dos Principais Resultados - TIC Kids Online Brasil 2025

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Com as mudanças de rotina no mundo, as famílias se adaptaram e alteraram seus papéis relacionais, mudando a forma como lidam com tarefas de gerenciamento da privacidade. Essa adaptação requer uma comunicação bem-sucedida entre pais e filhos, o que inclui a mediação parental do uso de mídias – celulares, computadores e internet – pelos adolescentes. De maneira prática, a mediação parental é o “não” dos pais sobre os impulsos por independência e identidade de seus filhos quando esse comportamento lhes pode fazer mal. Recentemente, as preocupações dos pais com dispositivos digitais são particularmente fortes, dadas as taxas crescentes de posse de celulares pelas crianças (WARREN E ALOIA, 2022).

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Atualmente, cinco formas de mediação são identificadas na literatura:

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(1) “Uso compartilhado” - pais e filhos consumindo mídia juntos;

(2) “Ativa” - pais orientam os filhos sobre conteúdo de mídia;

(3) “Restritiva” - pais impõem regras para o uso de mídia;

(4) “Monitoramento” - pais verificam histórico e atividade pós uso;

(5) “Estrutural” ou “Preventiva” - pais utilizam dispositivos ou aplicativos de controle.

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Estas mediações variam de acordo com a características dos pais e dos filhos:

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  1. Mais mediação: pais mais educados, pais de renda mais alta, pais que trabalham menos horas fora de casa, mães em comparação aos pais, e pais de minorias raciais e étnicas. 

  2. Menos mediação: pais menos educados, pais de renda mais baixa, pais que trabalham mais horas fora de casa e pais com filhos mais velhos.​

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Geralmente, a frequência da comunicação entre pais e filhos por telefone celular aumenta à medida que as crianças envelhecem. Esse padrão é paralelo às aquisições de telefones ou computadores pelos adolescentes, simulando o início da vida adulta. Neste momento, muitos adolescentes interpretam a mediação parental como uma falta de confiança e comunicação entre pais e filhos, em que os pais são desafiados a mediar enquanto tentam respeitar a autonomia de seus filhos. 

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Além disso, é importante destacar que a predominância do tipo de mediação também varia de acordo com as características dos pais e dos filhos:

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(I) “Uso compartilhado”: feita por pais com mais habilidade com tecnologia;

(II) “Ativa”: realizada por pais com maior disponibilidade de tempo;

(III) “Restritiva”: utilizada com filhos mais novos e que demandam mais imposição;

(IV) “Monitoramento”: presente em relações mais tensas com aversão à imposição;

(V) “Estrutural” ou “Preventiva”: feita por homens mais velhos, escolarizados e com mais renda, e por pais com pouca comunicação com os filhos;

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Essa estratégia baseia-se na ideia de que os pais façam esforços para reduzir o impacto negativo que a mídia social exerce sobre as crianças por meio de mediações. O objetivo não é necessariamente abolir o uso de tecnologia, mas reduzir ou evitar a formação de dependência entre os jovens, o que é considerado não benéfico pela literatura (NAGY ET AL., 2023; ASLAN E TURGUT, 2023).

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Como é a relação com os mais novos?

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Entre crianças de 4 a 7 anos, a estratégia mais utilizada é a RESTRITIVA, seja pela necessidade de imposição do pai sobre o filho ou pela falta de diálogo com entendimento por ambas as partes - crianças mais jovens não possuem uma noção bem formada de mundo. Não por acaso, os pais que adotaram um tipo de mediação ATIVA tinham filhos que exibiam uso problemático da mídia no nível mais alto e enfrentavam riscos na Internet. Dizer às crianças o que fazer sobre o uso de dispositivos móveis não é eficiente.

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Crianças com mediação por MONITORAMENTO apresentaram comportamentos problemáticos de uso de mídia com menos frequência do que as outras, bem como enfrentaram menos riscos na internet, seguidas por crianças com pais que adotaram a mediação de USO COMPARTILHADO.

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É importante destacar que os pais sabem que os dispositivos móveis melhoram as habilidades acadêmicas e os interesses das crianças, mas também causam alguns problemas cognitivos, psicológicos, de comunicação e físicos. Ou seja, estão cientes das oportunidades e dos danos dos dispositivos móveis. Contudo, eles utilizam os dispositivos móveis para envolver seus filhos ou mantê-los calmos ou entretidos, especialmente quando fazem seu próprio trabalho, estão em ambientes sociais ou realizam uma tarefa diária de rotina como comer, tomar banho, dormir, entre outras - o que pode ser visto como um problema potencial.

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De certa forma, o uso de dispositivos móveis na infância reflete mais as estratégias parentais do que as próprias escolhas das crianças. Essas atitudes moldam o comportamento dos filhos que, futuramente, vão moldar o comportamento de um outro alguém.

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Existe diferença de mediação e comportamento entre meninos e meninas?​

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Com base no que foi visto até agora, pode-se questionar: as atitudes que podem moldar o comportamento de crianças e adolescentes podem variar de acordo com o seu gênero?

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Mais uma vez, através de informações do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação do Brasil (CETIC.br) (2025), notamos que meninos e meninas respondem de maneira diferente a incentivos por redes sociais. Quando se trata de propaganda e venda, é observado que o padrão de consumo delas está ligado a materiais escolares, livros e demais objetos de educação. Já entre o padrão de consumo deles, jogos, videogames, moeda ou dinheiro virtual.

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Figura 2 - TIPO DE PRODUTO SOLICITADO APÓS O CONTATO COM PROPAGANDA OU PUBLICIDADE, POR SEXO

Total de usuários de Internet de 9 a 17 anos (%)

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Fonte: Apresentação dos Principais Resultados - TIC Kids Online Brasil 2025 

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Em 2019, antes mesmo da Pandemia do Covid-19 que alavancou o acesso à internet entre os jovens, mais de 70% das crianças de 9 a 17 anos usavam a internet para trabalhos escolares, sendo a atividade mais citada entre as meninas (79%) e só a segunda entre os meninos (68%), que era superada por jogos online (CETIC.BR, 2019). Ou seja, esse comportamento parece ser algo duradouro.

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De forma, esses padrões parecem refletir as estratégias que mais são utilizadas pelos pais. Entre as meninas, o monitoramento passa pelo controle do uso de dispositivos digitais (e.g. leitura de mensagens trocadas), mas não a ponto de resultar em conflitos regulares. Consequentemente, pais e filhas podem discutir a maneira preferida de usar as TIC de maneira mais amigavel. Por outro lado, entre os meninos, a estratégia passa pela falta de diálogo sobre o uso da tecnologia e o tempo de tela, com os pais não acompanhando de fato o que a criança faz. Isso se soma a discussões ocasionais sobre o uso adequado das TIC e restrições a elas de tempos em tempos. Os pais que se enquadram nessa categoria geralmente não têm tempo livre suficiente para passar com os filhos porque trabalham em turnos ou são pais solteiros com muitas obrigações – o que os leva a atitudes mais restritivas. Essas características demonstram a "escolha involuntária" dessa estratégia.

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Para os pais da média, os meninos são propensos a ter um comportamento mais arriscado do que as meninas, o que influencia diretamente os padrões de mediação e controle.

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Considerações

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De fato, não existe uma forma de mediação perfeita. Mas algo é comum em todas as estratégias eficientes: o estabelecimento de um diálogo. 

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O diálogo deve estar presente tanto nas mediações menos restritivas quanto nas mediações mais restritivas. Neste segundo caso, o diálogo deve existir de modo que a mediação não se torne um limitador da liberdade ou independência dos jovens. A tomada de decisão é desafiadora, principalmente em determinados contextos, porém os pais e responsáveis devem ter o cuidado de mediar sem impedir o desenvolvimento cognitivo e não cognitivo do filho – e tanto a liberdade quanto a independência são fundamentais para esse desenvolvimento.   

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Uma boa métrica para adotar uma mediação é entender o quanto o filho está deixando de fazer em tarefas importantes ou essenciais da sua rotina. Quanto mais o filho deixa de executar suas tarefas escolares de casa, ler e escrever com atenção e se relacionar com colegas e turma, mais atitudes de mediação devem ser consideradas. Do mesmo modo, caso o uso de tecnologia afete alimentação, saúde mental e as práticas de atividades físicas, o comportamento deve ser o mesmo.

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O mundo digital e das redes sociais é perigoso, mas esse perigo é evitável. É preciso compreender que as crianças não possuem a capacidade de utilizarem mídias e TIC de forma segura e não danosa, fazendo-se então necessária a mediação dos pais. 

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Referências:

 

Brasil, Comitê Brasileiro de Internet, “Apresentação dos Principais Resultados - TIC Kids Online Brasil 2025”, 2025. https://cetic.br/media/analises/tic_kids_online_brasil_2025_principais_resultados.pdf

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Brasil, Comitê Brasileiro de Internet, “TIC Kids Online Brasil 2019: Pesquisa sobre o uso de tecnologias de informação e comunicação no Brasil”. 

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Nagy, B., Kutrovátz, K., Király, G., & Rakovics, M. (2023). Parental mediation in the age of mobile technology. Children & Society, 37, 424–451. https://doi.org/10.1111/chso.12599

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Fong-Ching Chang, Chiung-Hui Chiu, Ping-Hung Chen, Jeng-Tung Chiang, Nae-Fang Miao, Hung-Yi Chuang, Shumei Liu. Children's use of mobile devices, smartphone addiction and parental mediation in Taiwan. Computers in Human Behavior, Volume 93, 2019, Pages 25-32, ISSN 0747-5632. https://doi.org/10.1016/j.chb.2018.11.048. (https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0747563218305831

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Warren, R., & Aloia, L. (2022). Mediação Parental no Uso do Celular e Autonomia do Adolescente. Journal of Family Issues , 44 (7), 1928-1948. https://doi.org/10.1177/0192513X211066955 

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Xinchen Fu, Jingxuan Liu, Ru-De Liu, Yi Ding, Wei Hong, Shuyang Jiang. The impact of parental active mediation on adolescent mobile phone dependency: A moderated mediation model. Computers in Human Behavior. Volume 107, 2020, 106280, ISSN 0747-5632, https://doi.org/10.1016/j.chb.2020.106280

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Aslan, A., & Turgut, YE (2023). Mediação parental na Turquia: O uso de dispositivos móveis na primeira infância. E-Learning and Digital Media , 21 (5), 444-461. https://doi.org/10.1177/20427530231167651 

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